terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Andei Lendo: “Um copo de cólera”, de Raduan Nassar.



Acabei de ler “Um copo de Cólera”, do escritor brasileiro Raduan Nassar, autor do belíssimo “Lavoura Arcaica” – que está na minha lista de livros para reler em 2017. A referida obra narra um momento na vida de um casal, formado por personagens sem nome e que não sabemos se estão juntos há longo ou curto tempo: se são namorados, casados, separados ou um caso repentino. Desta forma, vou me referir a estes personagens centrais simplesmente como ‘homem’ e ‘mulher’. Logo, seguem abaixo as minhas impressões literárias.

Os devaneios do homem conduzem grande parte da história que, basicamente, se resume a uma mescla de flashbacks de seus momentos íntimos com a mulher até a ocasião em que os dois entram em um bate-boca áspero e dilacerador – iniciado pelo homem, que ao perceber um buraco na cerca viva do jardim contíguo à chácara onde se passa a breve narrativa, explode em gritos ofensivos e afirmações incisivas contra a mulher, que o rebate ironicamente. As únicas testemunhas da discussão feroz são Mariana e Antônio, caseiros da instância, e o cão vira-lata Bingo.


A estética literária é caracterizada pelo fluxo contínuo de pensamento – estilo que consagrou grandes escritores da literatura mundial, como Virginia Woolf, James Joyce e, recentemente, David Foster Wallace –, tornando a narrativa fluida e dinâmica, sem dispensar o lirismo característico do autor. Ainda, é possível notar semelhanças à escrita de Saramago: sem as pontuações convencionais da gramática, Raduan Nassar convida-nos a uma imersão literária e de fôlego em sua trama. Ainda, podemos notar o aspecto dual da realidade, manifestado em seus símbolos duplos: homem e mulher; ódio e amor; ação e reação e orgulho e redenção.

Entre os personagens centrais existe como que uma linha tênue e sutil que os une ao longo da história: apenas o desejo corporal, envolvido em escancarada volúpia. No entanto, há um afeto implícito que os tornam emocional e psicologicamente dependentes.

Considerando estes aspectos, a obra trata do ódio transmutado em palavras afiadas e elevadas a um nível afetivamente destrutivo: a salvação e libertação humanas dependem da revelação de nossas verdades interiores, mesmo que por uma via dolorosa.

O livro ganhou uma versão para cinema em 1999, dirigida por Aluizio Abranches e conta com a atuação dos atores Alexandre Borges e Júlia Lemmertz.



Título: Um copo de cólera.
Autor: Raduan Nassar
Editora: Companhia das Letras.

#RECOMENDO!
#BIBLIOTECAS2017


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Andei Lendo: “Galantes memórias e admiráveis aventuras do virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça”, de José Roberto Torero.


O Conselheiro Gomes, vulgo Chalaça, é um personagem que mistura, brilhantemente, ingenuidade e esperteza, de forma que não se pode saber, em diversas situações, a que lado da balança lhe pesem mais as tais características. Frustrado o seu plano de desposar a viúva Baronesa de Lyon, na França, e colocar as mãos em parte de sua herança – uma vez que a coitada já divisava o crepúsculo soturno da morte – decide atender ao chamado de seu amo, o Imperador D. Pedro I, agora Príncipe Dom Pedro IV – que está em Portugal a defender a legitimidade política da Rainha Maria, sua filha, durante os conflitos entre os Constitucionais e Realistas, na primeira metade do século XIX.

Entre as intrigas da corte e a vida de “bon vivant”, com seus parceiros Carlota e Rocha, temos acesso a história de Chalaça em uma autobiografia de ordem não cronológica: pois, o próprio Conselheiro Gomes considera o seu nascimento ‘metafísico’ um evento sem par, uma vez que se deu a partir do conhecimento de D. Pedro, quando os dois se encontraram no Bar da Corneta em terras tupiniquins. Consolidada por uma relação fraternal, marcada pela atividade de alcoviteiro de Sua Alteza, a amizade de Chalaça com D. Pedro o permite galgar posições de valor no Palácio português – mas não sem dificuldades e rivalidades.

Ainda, podemos ter a honra de conhecer, mesmo que brevemente, as diversas teorias desenvolvidas por ele sobre o ser humano – dentre as quais destaco a tese do “domínio feminino sobre o homem em virtude do fluxo e refluxo da corrente sanguínea durante o coito” e “da perfeita evacuação das fezes e seus efeitos sobre o entendimento humano”.


Unindo inteligência refinada, elementos históricos e um humor impagável, o livro “O Chalaça” passou a ocupar lugar de destaque na minha lista das melhores obras da literatura brasileira contemporânea. José Roberto Torero é, de fato, um autor que consegue fazer das palavras certas, no momento certo, uma experiência ficcional única e divertida – muito divertida!

Portanto, #recomendo veementemente a leitura deste livro sensacional!

Autor: José Roberto Torero
Título: Galantes memórias e admiráveis aventuras do Conselheiro Gomes, o Chalaça.
Editora: Objetiva, 2001.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Andei Lendo: “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum.


O excelente livro Dois Irmãos (Companhia das Letras, 2000), do escritor manauara Milton Hatoum, narra os conflitos de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, no seio de uma família de descendência libanesa na Manaus - com seus aromas, sabores, paisagens e seus personagens - situada no período histórico que marca o fim da Segunda Guerra Mundial.

Com uma descrição apurada, incisiva e direta, o autor usa dos olhos de Nael, filho da empregada Domingas, para nos revelar as tramas que envolvem seus personagens. Desta forma, mergulhamos nas memórias do carismático e apaixonado chefe de família Halim e sua esposa Zana, pais dos gêmeos e da independente Rânia.

O centro dos embates e choques de personalidades entre os dois irmãos tem como princípio uma ingênua disputa amorosa iniciada na infância, despertando rancores, mágoas e cicatrizes físicas e afetivas que se consolidarão em um ódio brutal, elevado às últimas consequências.

É possível, ainda, perceber breves incursões históricas na referida obra, tais como o período de desenvolvimento econômico, evocado através de referências propositadamente vagas à construção da capital do Brasil; a truculência repressiva presente na ocupação militar de Manaus durante o mês de abril de 1964 e a demolição da “Cidade Flutuante”, como alegoria de um passado que se desfaz para dar início a um incerto presente. Disto, podemos concluir que a cidade, além de um palco, é um grande personagem na história.




Dois Irmãos é um livro de drama familiar, onde seus personagens centrais traçam, num arco, um movimento de ascensão, declínio e queda, de forma magistral. A referida obra ganhou o Prêmio Jabuti em 2000, ano de sua publicação, sendo traduzida para oito idiomas e consagrando Milton Hatoum como um dos maiores escritores da Literatura Nacional contemporânea.

#Recomendo!

Títiulo: Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum

Editora: Companhia das Letras.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Semelhanças musicais nos animes "Mindgame" e "Naruto".

Bem, é apenas um breve comentário sobre essas duas OST’s (Original Sound Tracks) referentes às animações “Mindgame” [2004] e “Naruto” [2002]. Enquanto assistia a “cena da baleia”, no sensacional Mindgame, notei as semelhanças musicais entre a trilha da referida cena [Grandfather] e o tema “Sasuke’s Theme” [Naruto]. As faixas estão à disposição no Youtube e possuem semelhanças bem interessantes. Portanto, resolvi publicar aqui:



 Essa é a "Sasuke's Theme".


Esta é a trilha "Grandfather.

Vale comentar que, talvez, ambas as músicas sejam releituras de alguma canção tradicional japonesa. Pois, reservam uma linguagem muito própria - estando as semelhanças apenas no arranjo de flauta das duas músicas. Seria plágio?! Enfim, não sei... ouçam por vocês mesmos e deixem suas opiniões.

Andei Lendo: Eurico, o presbítero.


Há muito tempo atrás – aproximadamente dez anos -, realizei a compra de um pequeno Box com clássicos da Literatura em Língua Portuguesa. A caixa continha livros cujas capas, talvez com uma finalidade organizacional, tinham cores diferenciadas, formando um tipo interessante de arco-íris quando colocados um ao lado do outro na estante. Todos eles, romances e poesias, possuíam sua versão integral e carregavam abaixo de seus respectivos títulos grandes nomes da Literatura, tais como: Machado de Assis, Álvaro de Azevedo, José de Alencar, Raul Pompeia, Tomaz Antônio Gonzaga, Lima Barreto, dentre outros. Porém, um dos livros que mais me chamou a atenção foi o que tinha estampado em sua capa um cavaleiro, portando armadura e lança, sob o título de “Eurico, o Presbítero”, do escritor português Alexandre Herculano [1810-1870].

O tempo passou e, recentemente, acabei doando este livro e outros tantos, sem a oportunidade de ter lido-o mais atenciosamente. No entanto, recentemente, criei vergonha na cara e voltei os olhos à narrativa envolvente e bela de “Eurico”, redescobrindo-o como um dos livros mais importantes de minha vida.

Considerado um clássico da primeira geração do romantismo português, “Eurico, o Presbítero” é um romance histórico, ambientado no contexto do declínio do Império Visigótico, na península ibérica do século VIII. E sua narrativa, marcada por tensões amorosas, dramáticas e batalhas épicas, conta a história de Eurico, guerreiro extremamente virtuoso e corajoso que, após ter rejeitada sua proposta de casamento com Hermengarda, filha de Fávila, Duque de Cantábria, por questões de posição social, decide tornar-se Presbítero na região de Carteia. Entregando-se totalmente à vida religiosa, manifesta publicamente seus dons poéticos através de odes à Glória Divina da Santíssima Trindade, que se espalham por toda a região.

Com a Invasão Árabe liderada por Tarique, Eurico arma-se corajosamente junto a Teodomiro, companheiro fiel de batalhas anteriores, sob o título misterioso de “Cavaleiro Negro”, assombrando os inimigos com sua força e violência. No entanto, um ato de traição deflagrado pelo Conde de Septum, Juliano, e pelo Bispo Opas, coloca em risco o destino dos Godos.


Os conflitos e tensões entre godos e árabes chegam ao ápice com a morte do Rei Roderico na batalha do Rio Chrysus, esfacelando o reino visigótico em diversos núcleos de resistência que, unidos, se concentram na Caverna de Covadonga, sob a liderança do irmão de Hermengarda, Pelágio, agora Duque de Cantábria. O cavaleiro negro se junta ao pequeno exército de Pelágio no intuito de resgatar Hermengarda das mãos de Tarique, capturada no Mosteiro da Virgem Dolorosa – particularmente, uma das cenas mais fortes e densas do livro – e dar prosseguimento à resistência da Espanha. Contudo, não será uma tarefa fácil, livre de revelações destruidoras e de um final que mescla triunfo e tragédia.


Alexandre Herculano foi um dos mais célebres escritores de Portugal e neste referido livro podemos encontrar os elementos que caracterizaram fortemente a primeira fase do Romantismo Lusitano. Enfim, “Eurico, o Presbítero” é um verdadeiro deleite literário, capaz de unir, em uma única dimensão ficcional, a poesia, história e tramas envolventes, traçadas pelo caráter firme de seus personagens.

#Recomendo!

Título: Eurico, o Presbítero
Autor: Alexandre Herculano
Editora: Projecto Adamastor

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Andei Lendo: "Ratos e homens", de John Steinbeck.


Acabei a leitura de Ratos e Homens, do escritor norte-americano John Steinbeck (1902 – 1962), Nobel de Literatura no ano de 1962 e célebre escritor de “As vinhas da Ira” – título que lhe conferiu o prêmio Pulitzer em 1939.

Esta novela conta a história de George – um caipira esperto e magrelo – e Lennie, um grandalhão forte, porém simplório, que o acompanha na busca por empregos em fazendas na região de Soledad, interior da California. Obviamente, estes dois personagens se complementam naquilo que falta a ambos, criando uma relação de amizade muito bonita e fortalecida por um sonho comum: ter dinheiro suficiente para comprarem um lugar onde possam trabalhar para si mesmos e, assim, “viverem da terra”.

Entretanto, o problema está no grave comportamento desajeitado e pueril de Lennie, causando as sucessivas demissões da dupla e, consequentemente, a condição de retirantes. Esta situação é interrompida quando conseguem trabalho em uma estância que simboliza, na genialidade de John Steinbeck, o microcosmo da natureza humana em todas as suas tonalidades. Neste ambiente, percebemos o justo, o preguiçoso, o irascível e as manifestações de preconceito, soberba e a sedução.


Este livro garante doses equilibradas e de comédia e drama – em sua tônica denunciativa dos abusos sofridos pelos trabalhadores do setor agrário californiano, característica de grande parte das obras de Steinbeck. E a forma como o referido autor desenvolve a narrativa, seus elementos e a relação entre seus personagens – cada um deles mais rico que o outro – é, no mínimo, única.

Ratos e homens é uma pungente história sobre a beleza, os riscos e as dores da amizade.

Título: Ratos e homens.
Autor: John Steinbeck
Editora: L&PM.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Assisti "Macbeth", de Orson Welles.


Esses dias assisti a “Macbeth” [1948], maravilhosa obra de William Shakespeare adaptada ao cinema pelo incrível Diretor e Ator Orson Welles.

Esta obra-prima da literatura, dramatizada em uma excelente versão para o cinema, trata, em sua essência, dos conflitos e choques internos entre nossas ambições e a concretização natural do nosso destino e suas conseqüências.

Com o espírito abalado pela profecia de três obscuras feiticeiras, Macbeth (interpretado pelo próprio Orson Welles), embriagado pelo desejo de concretizar seu destino como Rei, passa a sacrificar, mortalmente, tudo que lhe é mais caro: a fidelidade fraterna, honestidade e dignidade. Porém, ele não faz, a princípio, todas estas ações por sua livre vontade: Lady Macbeth (Jeanette Nolan) o incita, perversamente, ao assassínio, traição e regicídio – fatos que se transformam em profundas chagas espirituais de culpa e remorso (simbolizadas pelas mãos de Lady Macbeth, continuamente manchadas de sangue), levando-os à insanidade que marca seu trágico fim.


Cinematograficamente, Orson Welles realiza, com perfeccionismo e fidelidade à clássica obra, sequências de fôlego através de takes contínuos e closes marcantes, que nos transmitem ao campo das tensões interiores vividas por seus personagens principais. A atuação é perfeita e simboliza um prelúdio das grandes produções cinematográficas nos Estados Unidos.

#Recomendado!


Título: Macbeth.
Diretor: Orson Welles.

Ano: 1948.